PythonBrasil12

Florianópolis, SC

Outubro, 2016

Nota da APyB sobre o episódio do keynote

O objetivo deste comunicado é esclarecer o episódio que ocorreu na internet envolvendo o anúncio da seleção de um palestrante da Python Brasil[12].

Este texto foi revisado pela Comissão Organizadora da Conferência PythonBrasil[12], pela Diretoria da Associação Python Brasil, pelo palestrante e pelo seu empregador. Dessa forma ouvimos todos os envolvidos para encaminharmos a questão para uma conclusão.

Um pouco de contexto

A Associação Python Brasil (APyB) é uma associação de pessoas que abraçam os objetivos de promover a linguagem Python no Brasil e de ajudar qualquer pessoa a se beneficiar desta tecnologia, por meio de diversas atividades desenvolvidas voluntariamente por seus membros.

A APyB não é uma corporação com um dono, nem é a Comunidade Python, nem fala pela comunidade como um todo. A APyB existe para servir todas as pessoas que compartilham interesses com a linguagem Python e seu ecossistema.

A Conferência PythonBrasil é um evento técnico organizado anualmente por voluntários com o objetivo de promover a linguagem Python no país. Anualmente diversas propostas são submetidas e na assembleia anual da associação, os membros da APyB elegem por meio de votação a Comissão Organizadora da Conferência PythonBrasil para o próximo ano.

Nos eventos PythonBrasil temos keynotes e palestras totalizando pouco mais de 50 apresentações. Keynotes são palestrantes convidados, enquanto as demais palestras são selecionadas por meio de propostas submetidas pelo próprio palestrante.

Não há uma regra bem definida sobre o processo de seleção dos keynotes que fica a cargo dos organizadores do evento. Houve eventos onde os organizadores convidavam diretamente o keynote. Em outros os membros da APyB indicavam e priorizavam os potenciais keynotes pelo voto.

O que aconteceu?

Na maioria das edições, a PythonBrasil conta com um keynote de outra linguagem. Esta é uma forma de ampliar a conferência para além das fronteiras do Python promovendo o diálogo e a integração com outras áreas de interesse no mundo da tecnologia.

Através de networking em Florianópolis, os organizadores receberam a indicação de um potencial keynote para realizar uma palestra técnica sobre sua especialidade. Então, entraram em contato diretamente com o possível palestrante e conversaram com ele sobre a possibilidade da palestra. Neste processo, o palestrante compartilhou com a organização o seu currículo profissional, o que fortaleceu a indicação inicial devido sua experiência, e o convite foi formalizado.

Em nenhum momento houve participação ou indicação do empregador do palestrante.

Após o palestrante aceitar o convite, os organizadores perguntaram se posteriormente ele poderia verificar com o seu empregador se haveria interesse em patrocinar o evento custeando sua ida à conferência. Ele se prontificou a verificar, mas não houve tempo para isso.

Tendo buscado a viabilidade da palestra, os organizadores anunciaram nas redes sociais as informações sobre o keynote no site da conferência.

O problema.

O anúncio do keynote rapidamente se espalhou pela internet.

No mesmo dia do anúncio, por volta das 15 horas, o Mario Sérgio da organização do evento, recebeu uma mensagem do Fernando Masanori pelo WhatsApp alertando sobre um ruído no Twitter referente ao anúncio.

No processo de procurar saber mais sobre quem é o palestrante, algumas pessoas questionaram no Twitter se um retweet realizado pelo palestrante em sua conta pessoal não estaria em desacordo com o Código de Conduta do evento PythonBrasil.

A forma como a interação se configurou gerou um flamewar que se espalhou por vários canais de comunicação, principalmente pelo Twitter e Facebook. Apesar do volume de mensagens, todas as publicações foram lidas pelos organizadores e o problema foi comunicado à diretoria e ao conselho da APyB.

Imediatamente a organização e a diretoria publicaram uma nota no site do evento informando que estavam cientes da questão e que trabalhariam em uma solução.

Nesse meio tempo a confusão ganhou escala ainda maior quando a questão chegou à atenção em um fórum de postagens anônimas, onde os participantes do episódio foram ainda mais expostos.

Mesmo após a emissão da nota, a pressão por uma resposta definitiva e unilateral dos organizadores continuou crescendo chegando ao absurdo de pessoas fazerem contato frequente com os organizadores do evento enquanto estes estavam em seus horários de trabalho, colocando seus empregos em risco. Foi um verdadeiro ataque de negação de serviços promovido por uma massa da comunidade contra algumas pessoas da própria comunidade e contra um convidado do evento PythonBrasil.

O que pode parecer um flamewar contido na internet, teve impacto direto e profundo na vida de muita gente que na realidade teve sua semana transformada por algo que, para muitos, parece ter ocorrido apenas no mundo virtual.

Qual a posição da APyB sobre isso tudo?

As iniciativas da APyB são sempre inclusivas buscando promover um espaço aberto para todos, reduzindo barreiras para a participação das pessoas através do diálogo e respeito mútuo. Por isso, apoiamos e trabalhamos em iniciativas que envolvem inclusive ações afirmativas em busca da diversidade.

Entretanto, não há entre os membros da APyB qualquer consenso de opinião, político ou ideológico. Entendemos que diversidade inclui diversidade de pensamento.

Defender a diversidade excluindo previamente pessoas que julgamos não estarem de acordo com nossas ideias é um erro.

A defesa da diversidade visa romper com ciclos que estabelecem barreiras que impedem as pessoas de usufruírem de suas liberdades. Podemos e devemos defender o que achamos correto, mas não podemos fazer isso com intolerância, afinal realimentaríamos o ciclo que desejamos romper.

Não defendemos que a definição de “tolerância” seja aceitar a qualquer custo aquele que diverge em pensamento ou ações. Mas sim, que devemos lidar com estas diferenças dentro dos preceitos que nós defendemos. Se defendemos a diversidade, inclusão, respeito mútuo, igualdade de tratamento, etc, então devemos tratar aqueles que divergem em pensamentos e ações utilizando os mesmos preceitos.

A fronteira entre o que cada pessoa tolera e os limite da Lei é subjetivo. Muda de acordo com diversos fatores. Alguns chamam de "senso-comum" ou "bom-senso". Mas como dito, é subjetivo. Para todas as questões previstas em Lei, o estado democrático de direito no qual vivemos fornece instituições competentes para lidar com elas.

De toda forma, para tentar delimitar e estabelecer minimamente o "bom comportamento" ou "senso-comum" dentro dos domínios aos quais a APyB é responsável, fez-se o Código de Conduta para a conferência anual.

Os questionamentos que iniciaram este episódio levantaram a dúvida sobre uma possível violação do Código de Conduta, devido a um retuite na conta pessoal do twitter do palestrante convidado.

Questionamentos são sempre bem-vindos e existem canais na associação onde qualquer pessoa pode dialogar, criticar e/ou se manifestar. No entanto, nesta questão a forma como as interações se desenrolaram através de flamewars na internet, sem diálogo e respeito, esteve longe do que deveria ter ocorrido.

A APyB não investiga a vida pessoal de qualquer palestrante, participante ou membro, e nem investigará. O posicionamento político e ideológico das pessoas não dizem respeito à APyB.

O Código de Conduta (CdC) visa tornar um pouco menos subjetivo o que é tolerável ou não dentro dos eventos e locais onde a APyB é a responsável, como por exemplo o evento anual PythonBrasil. O CdC tem como objetivo evidenciar que todas as pessoas são bem-vindas e que o respeito mútuo é exigido. E ainda vai além explicitando o compromisso da organização do evento de apoiar ativamente qualquer pessoa em caso de alguma eventualidade.

Este mesmo CdC não se aplica por exemplo ao fórum de discussões “PythonBrasil Programadores” no Facebook, porque este não é mantido pela APyB, mas por membros da Comunidade Python dos quais muitos participantes não são associados à APyB.

Também não cabe a APyB julgar o comportamento individual de seus integrantes ou outras pessoas em redes sociais ou em eventos que a APyB não apoie, patrocine ou não seja a fomentadora responsável. Cabe à APyB apenas o que ocorre nas iniciativas de sua responsabilidade.

O que decidimos?

Conversamos extensamente com as partes envolvidas, incluindo o próprio palestrante e seu empregador.

A primeira coisa que decidimos fazer é pedir desculpas publicamente ao palestrante convidado e ao seu empregador por terem sido envolvidos em toda esta confusão.

Observamos que existe um limite importante na delegação de poderes que os membros da APyB fazem aos organizadores do evento.

Por isso decidimos que:

  1. Estão suspensos os dois keynotes da conferência, devido a falta de ânimos pelo constrangimento do episódio.
  2. A partir de agora os Membros da APyB farão a escolha dos keynotes e das palestras da PythonBrasil[12] através da lista de discussões oficial da associação.

Conclusão

Esperamos que este episódio nos sirva de exemplo do que devemos evitar. Ele nos alerta para um comportamento mais sereno no tratamento dos potenciais problemas. São pessoas que estão por trás das tecnologias que envolvem a linguagem Python e isso nunca pode ser esquecido. Como também, uma indignação improvisada pode causar um movimento predatório da imagem da nossa comunidade e, por conseguinte, dos valores que defendemos, das pessoas e instituições ligadas a ela.

Caso ocorram situações parecidas, podemos e devemos agir de maneira diferente, através do diálogo e do respeito.

Como em todas as edições anteriores, temos certeza que a PythonBrasil[12] será um grande evento, pois a comunidade é muito forte, inclusiva e tudo tem sido preparado com muita dedicação. Continuaremos apoiando os organizadores e ouvindo a comunidade para renovar o sucesso que já dura 12 anos.

Até breve. Nos vemos na PythonBrasil[12] em Florianópolis-SC.

Atenciosamente, Diretoria da Associação Python Brasil

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